This article analyzes the watercolor and graffiti art of the Afro-Brazilian, lesbian visual artist Annie Ganzala. It argues that Ganzala’s focus on the erotic (Audre Lorde) and the centrality of black women’s pleasure contributes to a collective healing centered on sensorial and corporeal knowledges. Ganzala’s paintings and graffiti art augment a contemporary archive that privileges sensorial and embodied knowledges as a method to decenter the white Eurocentric focus on written texts for documenting and recounting colonial and contemporary histories. Simultaneously, her pieces reflect black lesbian desire and sensuality in order to create spaces for social protest and collective healing for black lesbian women in Brazil and the African diaspora. This article discusses seven watercolor paintings and two murals to showcase the ways that Ganzala’s technique focuses on black female love in relation to community and spirituality through omitting a recognizable context or backdrop and instead centering the bodies and shared desires among the women. It argues that these works contribute to an imagined queer utopic space where such erotic and spiritual love is the center of collective healing and a site of archival knowledge still being unveiled through decolonial artistic practices.

RESUMEN Este artículo analiza las pinturas en acuarela y el grafiti de la artista visual afro-brasileña y lesbiana Annie Ganzala. El presente artículo sostiene que el enfoque de Ganzala en lo erótico (Audre Lorde) y la centralidad del placer sexual de las mujeres negras contribuyen a una curación colectiva centrada en los conocimientos sensoriales y corporales. Las pinturas y el grafiti de Ganzala aumentan un archivo contemporáneo que privilegia los conocimientos sensoriales y corporales como un método para descentrar el enfoque blanco y eurocéntrico en los textos escritos para documentar y relatar historias coloniales y contemporáneas. Simultáneamente, sus obras reflejan el deseo y la sensualidad de las lesbianas negras para crear espacios para la protesta social y la curación colectiva de las mujeres lesbianas negras en Brasil y en la diáspora africana. Este artículo analiza siete pinturas en acuarela y dos murales para mostrar las formas en que la técnica de Ganzala se centra en el amor femenino negro en relación con la comunidad y la espiritualidad al omitir un contexto o un fondo reconocibles y, en cambio, concentrar en los cuerpos y los deseos compartidos entre las mujeres. Este trabajo sostiene que estas obras contribuyen a un espacio utópico queer imaginado, donde este tipo de amor erótico y espiritual es el centro de la curación colectiva y un lugar de conocimiento archivístico que aún se está revelando a través de las prácticas artísticas decoloniales

RESUMO Este artigo analisa as aquarelas e os grafites da artista afro-brasileira e lésbica, Annie Ganzala. O texto argumenta que o foco das obras de Ganzala no erótico (Audre Lorde) e a centralidade do prazer das mulheres negras contribuem para uma cura coletiva que centraliza o conhecimento corporal e sensorial. As aquarelas e os grafites de Ganzala somam a um arquivo contemporâneo que privilegia os conhecimentos sensoriais e corporais como metodologia para decentralizar o foco branco eurocêntrico nos textos escritos como forma privilegiada para a documentação das histórias coloniais e contemporâneas. Simultaneamente, as obras de Ganzala refletem o desejo e a sensualidade das lésbicas negras para também criar espaços de protesto e de cura coletiva para as mulheres negras no Brasil e na diáspora Afro. Neste artigo, são discutidas sete aquarelas e dois grafitis para demonstrar as maneiras pelas quais a técnica de Ganzala centraliza o amor entre lésbicas negras em relação à comunidade e espiritualidade ao omitir as referências a um contexto ou pano de fundo específico e, em vez disso, centrar-se nos corpos e desejos compartilhados entre as mulheres. Postula-se que as obras de Ganzala reforçam um espaço utópico queer imaginado onde os desejos eróticos e espirituais formam o centro da cura coletiva e também um espaço para o crescimento de um arquivo corporal que ainda se revela através de práticas descoloniais.

“A minha intenção é que através do que faço como artivismo e expressão artística seja para somar na luta contra as opressões de gênero, sexualidade, raça e epistemicídio cultural e histórico. Para que outrxs companheirxs1 possam se sentir também refletidos e encorajados a expressar e a manifestar suas subjetividades e dissidências relacionadas à sexualidade, gênero, religião, classe e raça, que ainda são temas problematizados separadamente aqui no Brasil; sendo um desafio discutir interseccionalmente essas diversas pautas principalmente dentro do movimento de arte e cultura. Acredito na arte como uma das mais potentes ferramentas de denúncia e visibilidade política.

Fluidos têm cores, cheiros, têm potências de vida, sabores e efeitos, desejos e transas, fruto das simbioses urbanas, com espíritos ancestrais, vida, morte e renascimento cotidiano entre sujeitxs e natureza, que não cabem em categorias e lógicas de pensamento ocidental, eurocêntrico e cristão. Trago, através de aquarelas, os desafios de ser negra e lésbica no Brasil, visibilizando nosso gozo e nossas perdas por morte de ódio às nossas existências.

O movimento começa a partir de como me localizo e de como me compreendo para potencializar minhas vivências nesses encontros comigo mesma ao encontro com outras potências de resistência e utopia.

Tenho inscrito em mim suas miradas que também fazem parte de estarmos juntas ainda nos curando, cuidando dos traumas; faz realmente pouco tempo que começamos a parar de odiar nossos corpos, nossas raízes e nossa sexualidade. Temos aqui mais tempo em que fomos escravizados do que o tempo em que podemos nos considerar livres.”2 

Annie Ganzala é negra, lésbica, feminista, adepta do Candomblé, mãe de Lila e moradora da periferia de Salvador, Bahia, Brasil. O objetivo principal de sua arte é a cura coletiva do passado colonial e da escravidão de corpos negros nas Américas, que, de certa forma, ainda ecoa atualmente. Embora a escravidão no Brasil tenha sido abolida oficialmente em 1888 – através de lei escrita e declamada pela princesa Isabel3 – o mesmo sistema se perpetua através da discriminação, do encarceramento, do assassinato, do subemprego e da segregação. O crítico social argentino Walter Mignolo, em La idea de América Latina, explica que “La colonización del ser consiste nada menos que en generar la idea de que ciertos pueblos no forman parte de la historia, de que no son seres. Así, enterrados bajo la historia europea del descubrimiento están las historias, las experiencias y los relatos conceptuales silenciados de los que quedaron fuera de la categoría de seres humanos, de actores históricos y de entes racionales.”4 A cura que a pintora e grafiteira propõe é baseada na ampla integração dos sentidos nas nossas maneiras de experienciar a realidade social com um enfoque no amor e no prazer compartilhado e expressado entre mulheres negras lésbicas, além da reivindicação dessas identidades como protagonistas históricas essenciais no entendimento e na formação da sociedade contemporânea.

O presente trabalho observa as obras de Ganzala a fim de postular que o erótico, como formulado por Audre Lorde em Uses of the Erotic, e a forte ligação entre os sentidos e a natureza, contribuem e expandem para formar um arquivo vivo que sana as dores, tanto do passado quanto do presente, centralizando a experiência corporal e sentimental. O arquivo, como o pensamos tradicionalmente, inclui os textos escritos pelos primeiros europeus que chegaram às Américas e documentaram suas observações em crônicas, pinturas e cartas. Essa perspectiva tem se convertido em cânone oficial e tem se consolidado em narrativa nacional. O presente trabalho pensa arquivo como um conjunto de textos–incluindo cantigas, coreografias, graffitis, arquitetura, etc.–vivo e obrigado a mudar para incluir mais perspectivas. Em sua auto-apresentação, Ganzala nos introduz à centralidade do corpo em contar histórias da escravidão e do colonialismo, mas também do prazer e do amor homoafetivos compartilhados entre mulheres negras. Recentemente, muitxs artistas, intelectuais e artivistas têm sonhado com uma política e uma prática descolonial que se foque em sensibilidades locais e corpos marginalizados pelo colonialismo, e que critique o racismo perpétuo.5 Esse é precisamente o objetivo de Ganzala ao criar e compartilhar sua arte com a comunidade local; através de seus graffitis em exibições e palestras locais; e também com a comunidade diaspórica, através de sua participação em exibições internacionais.6 

L. H. Stallings, em Funking the Erotic: Transaesthetics and Black Sexual Cultures, destaca uma excelente maneira de pensar a relação entre os sentidos, o arquivo tradicional e maneiras de fortalecer a sexualidade na cultura negra como aspecto central para entender a memória coletiva e o arquivo corporal: “Metaphorically, this book is about what stinks and the forms of social power produced to cover up that stank, but it is also about the cultures least associated with intelligence and spirituality as a result of these forms of social power–the profane, the visceral or sensation, and the party.”7 A noção de que se poderia prover pungência à memória é uma imagem bastante relevante na arte de Annie Ganzala, já que suas aquarelas e grafites pretendem criar uma experiência multissensorial que convida os espectadores a sentirem o cheiro das águas e das folhas das árvores, ligadas, por sua vez, aos prazeres e intimidades compartilhados entre lésbicas negras. Suas imagens evocam nossas experiências sexuais e íntimas, evidenciando memórias individuais e coletivas, em termos da socialização e da herança biológica transferida pelas células das nossas mães. A artista se foca na alegria e no prazer dos atos sexuais que, desde a chegada dos africanos escravizados, têm sido criminalizados e punidos. Assim, como indica Stallings, os espaços onde a sexualidade negra se expressa abertamente mantêm a memória de uma maneira não expressada nos arquivos coloniais e nem vista pelo olhar eurocêntrico e cristão. Ao centralizar a sexualidade negra e lésbica, Annie Ganzala consolida uma experiência de memória viva nos corpos, representando o presente e criando o futuro.

O Brasil é conhecido como um dos países com maior violência e discriminação contra pessoas gay e jovens negros, e a retórica homofóbica do presidente Jair Bolsonaro em 2019 pode contribuir para o acirramento dessa situação. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) declara que o Brasil é um dos países mais perigosos para as mulheres trans, especificamente, com um total de 179 homicídios em 2017,8 sendo 94% contra o gênero feminino e 80% contra negras e pardas. O estado da Bahia, lugar onde mora Ganzala, é o segundo lugar onde mais se mata mulheres trans.9 A ANTRA também indica que a maioria, 70%, das mulheres assassinadas eram prostitutas. Aqui, emerge uma contradição: uma sociedade que não criminaliza a prostituição, mas que ainda expressa seu ódio por trabalhadoras sexuais, transexuais em particular, e que tenta controlar os corpos das mulheres negras (trans e cis).10 O Brasil, apesar de se apresentar internacionalmente como um país onde todos se unem para celebrar o carnaval e onde o legado da escravidão se transformou em mito da harmonia racial, conta com uma sobrerrepresentação de jovens negros no sistema penitenciário.11 Além disso, o país testemunhou recentemente uma controvérsia relacionada à liberdade de expressão e à política queer, quando a exposição Queermuseu–Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, que reunia 85 artistas que abordavam temáticas LGBT, foi cancelada após protestos em redes sociais. O mesmo ativismo conservador que impeliu o Banco Santander – principal patrocinador do evento “Queermuseu” – a fechar a exibição, também promove uma política evangelista e anti-Candomblé.12 Em um contexto onde as minorias sexuais e de gênero estão sendo atacadas e assassinadas e onde a espiritualidade e ancestralidade africana estão sendo censuradas, é imprescindível o artivismo de feministas descoloniais como Annie Ganzala.

A persistente invisibilização de mulheres lésbicas e homens trans é outra violência que pode ser mais difícil de documentar, mas cuja realidade é evidenciada em protestos e movimentos organizados ao redor dessas identidades. Ariel Nobre, artista e mulher trans, diz: “I feel that we’re living a war. The conservatives are trying to recreate the environment of the 70s and 80s, during the dictatorship. But it’s another society now, and they don’t realize that. The elite doesn’t accept that black people are in universities, that transgender artists are in museums, that the poor have more access. They can’t accept that we can speak for ourselves.”13 Outros artistas queer também tematizam sua posição em relação à história colonial e o apagamento de gêneros e sexualidades chamados de “anormais.” O crescente movimento evangélico sinaliza um retorno a um passado violento e opressivo. Em resposta a essas tendências, a Marcha do Empoderamento Crespo – que ocorreu em 2017 em Salvador – tinha como objetivo impulsionar e dar continuidade à luta por direitos básicos do povo queer, não-normativo e afro. Esse evento, que contou com a participação de mais de 10.000 pessoas, tematizou os problemáticos sentimentos de vergonha da população brasileira em relação ao cabelo crespo.14 A visibilização e autoafirmação de identidades marginais converte-se em um ato revolucionário e essencial para combater violências e construir um arquivo contendo identidades marginalizadas que sempre existiram, mas que foram perseguidas no Brasil desde o período colonial até hoje.15 

Annie Ganzala se encontra no meio dessa convergência entre ativismo e protestos a favor da população negra e do aumento da livre expressão de sexualidades e gêneros minoritários em uma história onde as mulheres negras são menosprezadas e lésbicas são praticamente invisíveis.16 Ela representa sua experiência na forma de um arquivo vivo nas ruas onde pinta seus graffitis, criando também um espaço seguro para identidades interseccionais nas exibições que organiza em galerias. Como fonte de conhecimento, espaço intelectual e centro de emoções e prazeres, ela utiliza o corpo negro feminino lésbico como agente e protagonista na formação de um novo arquivo descolonial. Simone Brandão, em “Teorias lésbicas contemporâneas e a arte como ativismo e potência de resistência e visibilidade,” cita a feminista lésbica Dorotea Gómez Grijalva como modelo para a promoção de uma perspectiva interseccional ao centralizar o corpo como fonte de conhecimento. Grijalva “compreende o corpo como um território político, um instrumento histórico de descolonização patriarcal que é dotado de memória e conhecimento. Nesse sentido, [ela] utiliza-se da experiência do corpo como possibilidade de visibilidade e resistência lésbica e narra sua experiência, usando a escrita dessa vivência como potência.”17 Sem instrução formal nas artes visuais, Annie Ganzala utiliza sua habilidade autodidata, centralizando sua experiência corporal como fonte de conhecimento, para construir um espaço onde mulheres negras possam se ver retratadas como protagonistas empoderadas.

O CORPO EM RELAÇÃO AO MUNDO ESPIRITUAL

A exploração dos corpos negros e indígenas aconteceu simultaneamente com a destruição e o abuso do meio ambiente no período colonial. Com as pessoas escravizadas da África, vieram as práticas religiosas africanas, visto no Candomblé e sua forte ligação com a natureza e a inerente relação entre seres humanos e o meio ambiente. A obra de Annie Ganzala centraliza a conexão entre a resistência humana e a espiritualidade, especificamente o Candomblé, religião que ela pratica e valoriza como central na sua formação como indivíduo.18 A pintora expressa de forma clara e evidente a maneira em que elementos naturais que formam o centro do Candomblé também formam parte do corpo humano.

FIGURE 1.

Annie Ganzala, Sem título 1, da série Espiritualidade, 2017. Aquarela, 45 1/2 × 40 in. (115.6 × 101.6 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 1.

Annie Ganzala, Sem título 1, da série Espiritualidade, 2017. Aquarela, 45 1/2 × 40 in. (115.6 × 101.6 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

Ao observar Sem título 1 (da série Espiritualidade, 2017, Figura 1) percebe-se imediatamente caveiras no fundo do mar. Rosas brancas – costumeiramente lançadas ao mar por adeptos do Candomblé e seguidores de Iemenjá, orixá dos mares e da fertilidade – evocam as caveiras nas profundezas, estabelecendo uma conexão entre as oferendas de flores e os corpos decompostos no fundo do mar. Tanto as rosas quanto os corpos originaram-se na terra, mas são acolhidos pelo mar. Annie Ganzala relaciona morte à travessia entre a África e as Américas, ressaltando as tradições e práticas espirituais que perpetuam conexões sentimentais com os ancestrais e suas histórias vivas. Sem título 1 é dividida em duas partes – a primeira representa a relação entre os humanos e Iemanjá atualmente e, a segunda, todos os humanos que morreram e cujos corpos integram a areia, a terra, o sustento. A artista assim demonstra a dependência dos vivos nos mortos, além de rememorar os africanos escravizados que não sobreviveram à passagem entre África e as Américas. Salvador, o primeiro porto colonial e cidade onde houve o maior número de africanos escravizados, emerge como um contexto ideal para a discussão do tratamento das pessoas escravizadas. No entanto, a artista não ressalta a exotificação do corpo, ou a violência a que foram submetidos, nem a dor que sofreram os corpos afro-brasileiros no momento colonial e que ainda sofrem no presente. A linda deusa dos mares e das águas salgadas parece dançar sobre elas com seu cabelo crespo e sua pele negra, revelando suas origens na África. Tanto Iemanjá como as quatro pessoas que vão à beira do mar para honrá-la com rosas brancas são mulheres negras. Nenhuma delas parece se sentir presa, e seus arredores não oferecem ameaça qualquer – sequer os animais marinhos interrompem seu intercâmbio. A relação entre elas é íntima e sólida, prescindindo da intervenção de um intérprete ou da marcação de um contexto histórico específico.

Na parte inferior da obra, as caveiras remetem às décadas de mortos, ilustrando a severidade da história colonial que persiste como pano de fundo para o presente. As vozes não incluídas e as identidades não percebidas como “seres completos”, como diz Walter Mignolo, também integram a história das Américas, além de sustentar a vida oceânica no presente. A mistura do sangue, dos fluídos corporais e da carne decomposta sustenta a vida do mar. Assim, essa história viva do mar também faz parte da história das mulheres negras adeptas ao Candomblé. Uma das principais feministas negras no Brasil, Conceição Evaristo, diz que “[s]ão suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor.”19 Na obra de Annie Ganzala não são mulheres exotificadas, nem dominadas, as protagonistas da história do país, mas sim aquelas que mantiveram ligações fortes tanto com a espiritualidade que as guiou, quanto com as caveiras–referência aos africanos escravizados–que provém forte sustento às pessoas que lutam no presente para curar este passado doloroso.

O cheiro das águas salgadas e a insinuação de ares quentes abraçando a pele negra das três figuras em Sem título 2 (da série Espiritualidade, 2016, Figura 2) podem causar, nas espectadoras, sentimentos de estarem também protegidas e abraçadas ao presenciar este momento espiritual e amoroso. Nesta aquarela, Annie Ganzala mostra como a espiritualidade está ligada à ancestralidade africana no Brasil e ao poder do erótico e da expressão amorosa entre duas mulheres negras lésbicas. A figura de Iemanjá, com sua pele negra e os mares azuis ao seu redor, aparece como fundamental na formação de um espaço aberto e seguro pelo amor lésbico. A orixá da fertilidade e mãe dos outros orixás usa seu braço direito para acolher as duas amantes e para mantê-las seguras dentro das suas águas. Iemanjá não é a terceira amante, mas parte do mesmo ambiente, o ar, a atmosfera e a substância que propiciam o amor lésbico. Ela é uma mulher forte; é um espírito que guia e controla as águas que ligam as Américas à África. A artista, ao enfatizar a conexão entre o amor lésbico e a poderosa orixá, pretende demonstrar a espiritualidade transatlântica e sua ligação com o amor entre mulheres negras na atualidade.

Além disso, Sem título 2 também tematiza a conexão persistente entre o meio ambiente, os seres humanos e o mundo espiritual. Iemanjá usa um bracelete em seu braço direito, onde pode-se ver um peixe. O animal remete a seu nome na língua Iorubá: mãe cujos filhos são peixes.20 Seu braço esquerdo, por sua vez, parece recoberto por escamas coloridas – contrastando com o restante da obra, composta majoritariamente por tons azuis, negros e marrons. Este braço faz referência à diversidade marinha: peixes, corais, algas, areias e, de novo, à expansão de seus poderes e a interdependência entre seres humanos, animais e orixás.

Essa obra exemplifica o conjunto de temas prevalentes na obra de Annie Ganzala: espiritualidade, resistência e sexualidade. Os temas centrais na obra da pintora contribuem para o projeto descolonial da artista, no qual se centralizam espiritualidades ligadas às tradições africanas e indígenas no contexto brasileiro, resistências ao racismo e à supremacia branca que ainda prescreve as interações sociais, econômicas, educativas, além de visibilizar sexualidades não heteropatriarcais que são perseguidas no contexto brasileiro e que, portanto, necessitam ser celebradas publicamente.

FIGURE 2.

Annie Ganzala, Sem título 2, da série Espiritualidade, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 2.

Annie Ganzala, Sem título 2, da série Espiritualidade, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

O CORPO ERÓTICO

Como forma de protesto, a maioria das obras de Annie Ganzala centraliza corpos femininos. Similarmente a Sem título 2, Sem título 3 (da serie Erotismo, 2016, Figura 3) também ressalta a ligação entre os corpos humanos, a sensualidade lésbica e o mundo espiritual-natural. A artista procura utilizar imagens, cores e provocar xs espectadores para alterar um arquivo que costumeiramente apresenta espiritualidade, sensualidade e o erótico em separado. Conforme afirmado em sua declaração de artista, “[f]luidos tem cores, cheiros têm potências de vida, sabores e efeitos, desejos e transas, fruto das simbioses urbanas, com espíritos ancestrais, vida e morte e renascimento cotidiano entre sujeitxs e natureza. E que não cabem em categorias e lógicas de pensamento ocidental, eurocêntrico e cristão.” Ela expande essa ideia em entrevista com Patrícia Gonçalves: “O fato de a gente conseguir se amar, quebrar esse círculo de ódio, também é quando a gente fala de relacionamento entre pretos e pretas. A gente quebra e começa a se mirar no espelho de ver o belo no igual, no seu igual, na sua cor.”21 O conteúdo das obras insiste em outra perspectiva. Ao enfatizar o conjunto de espiritualidade, sensualidade e o erótico, contrasta-se a abordagem que privilegia a racionalidade como superior aos demais modos de percepção.22 

FIGURE 3.

Annie Ganzala, Sem título 5, da série Erotismo, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 3.

Annie Ganzala, Sem título 5, da série Erotismo, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

Tanya Saunders, em “Epistemologia negra sapatão como vetor de uma práxis humana libertária”, explica que legados coloniais opressivos foram corporalizados e institucionalizados, além de impactarem a formação da cultura no nível erótico. Citando a crítica afro-feminista Jacqui Alexander, Saunders destaca a “‘autonomia erótica’ como um projeto emancipatório feminista, [que] possui possibilidades transformadoras para nação, uma vez que irá permitir a todos os cidadãos, especialmente as mulheres, a possibilidade de serem totalmente incluídas na nação como sujeitas autônomas.”23 A respeito disso, Ganzala, em sua série Erotismo, contribui na construção de um arquivo que inclui atos sexuais e íntimos entre mulheres negras. Essa autonomia erótica não é necessariamente expressada em atos sexuais e sexualidades queer, mas cria um vínculo com o trato colonial de mulheres negras, violações, abusos e exploração que seguem presentes ainda na cultura de hoje com a exotificação, a sobre-representação de mulheres negras no setor de trabalhadoras domésticas e o sobre-cargo de trabalho para mulheres negras quem chefiam as casas em contraste com a reclamação do prazer dessas mesmas mulheres. Assim, a autonomia corporal erótica expande para a autonomia do corpo da mulher negra, de forma geral.

Em Sem título 3, vê-se como os corpos estão interconectados e como a pele morena das áreas abdominais quase se convertem em um espaço contínuo, tornando-se impossível distinguir um corpo do outro. Embora se possa imaginar como a saliva da boca de uma das mulheres interatua com o líquido da vagina da outra e se misturam criando uma substância molhada e pegajosa, a imagem bidimensional não nos permite sentir, de fato, esse líquido. No entanto, vemos como os dois corpos se convertem em um. Pode-se ainda imaginar a água usada para molhar o pincel forjando, com a tinta, a cor morena distinta das figuras. As figuras são individualizadas e estão integradas com o ambiente onde se encontram, com linhas e pontos que formam seus corpos se interconectando com o fundo. Sugere-se, assim, que o prazer compartilhado entre as duas mulheres cria o ambiente e não é separado dele. Ganzala, apesar de retratar a união entre essas mulheres, também lida com o tema da separação – representado nesta obra através do quadriculado em preto, branco e roxo, que provocam um contraste com as figuras curvilíneas das mulheres, ressaltando-as. O enfoque da obra é o prazer dessas duas pessoas e o mundo que criam ao expressar seu desejo e compartilhar este erótico sentimental. As obras nessa série expõem os prazeres compartilhados na intimidade lésbica, centralizando a corporalidade e sensualidade compartilhada, não individual.

Em 1978, em um congresso em Mount Holyoke College, a escritora e ativista negra e lésbica norte-americana, Audre Lorde, discutiu a opressão do erótico em uma palestra intitulada Uses of the Erotic: The Erotic as Power, declarando que: “The erotic is a resource within each of us that lies in a deeply female and spiritual plane, firmly rooted in the power of our unexpressed or unrecognized feeling. In order to perpetuate itself, every oppression must corrupt or distort those various sources of power within the culture of the oppressed that can provide energy for change. For women, this has meant a suppression of the erotic as a considered source of power and information within our lives.”24 Em Sem título 4 (da série Erotismo, 2016, Figura 4) Annie Ganzala demonstra como as raízes da árvore vêm do erótico feminino, representado pelas vinte e quatro mulheres ligadas a ele. Este poder do erótico enraizado no corpo feminino claramente se conecta com a temática geral da obra que celebra a alegria, o prazer e a conexão física e sentimental entre mulheres. Novamente, o cenário e o contexto sócio-histórico não são aspectos relevantes e nem identificáveis na obra – o enfoque está nos corpos das mulheres, que olham para dentro da imagem, enfatizando a conexão que elas têm entre si. Assim, a energia erótica que vem de dentro delas é a mesma que Lorde identifica como reprimida e corrompida pelas forças opressoras. Não é dada importância aos rostos das mulheres, mas à variedade de posições sexuais e a intimidade que elas expressam juntas. Percebe-se braços, seios, pernas, nádegas e cabelos – partes do corpo não associadas tradicionalmente com a expressão de sentimentos. Os corpos estão entrelaçados e fundem-se. Ganzala busca enfatizar o poder erótico coletivo, consolidando o projeto de Audre Lorde e demais artistas descoloniais que impulsionam as mulheres a abraçar sua sensualidade e afirmar suas emoções no âmbito social.

Na mesma palestra, Audre Lorde discorre sobre a relação entre a espiritualidade e o erótico, assim como a falsa equivalência entre a pornografia e o erótico.25 Ela explica que há falsas tensões entre o erótico e o espiritual. Diz, “[w]e have attempted to separate the spiritual and the erotic, therby reducing the spiritual to a world of flattened affect, a world of the ascetic who aspires to feel nothing.”26 Como o mundo espiritual parece estar associado a uma figura ascética despida de sentimentos, Lorde afirma que esta pessoa espiritual está tão conectada com seu corpo e com seus sentimentos que até pode ter a capacidade de conviver com a verdade do erótico. Simultaneamente, nota que a combinação do erótico com a pornografia remove o aspecto mais importante do erótico – os sentidos. Lorde também critica a construção do corpo feminino na cultura popular, afirmando que na pornografia o enfoque está na sensação e não nos sentimentos – reiterando assim a conexão entre os sentidos e o erótico. L. H. Stallings corrobora com Lorde ao expressar-se sobre o erótico e a sexualidade, ao afirmar que ela “cannot omit or lessen the significance of these moments in which what is thrilling, erotic, obscene, pornographic, profane, or sexual intersects with what is feminine, sacred, spiritual, intellectual, and nurturing because they are still ongoing moments that inform how I read people, culture, communities, and political movements.”27 Dessa forma, ambas autoras insistem que o erótico está precisamente conectado com os sentimentos e que é daí que as mulheres, em particular, acessam seu poder. Em Sem título 5 (da serie Erotismo, 2016, Figura 5), a sensualidade compartilhada entre as mulheres é manifestada através do entrelaçamento de seus corpos, mas também dos beijos no ânus e sexo oral na vagina. Estes atos, entretanto, não são o foco da obra. Annie Ganzala emaranha os corpos como gavinhas de raiz para enfatizar a importância dessas relações afetivas e, assim, disputar a ideia acerca da sexualidade lésbica como pornografia, ou meramente baseada em prazer físico. Ela ressalta a conexão com um poder espiritual proveniente do mundo natural–o poder maior.

FIGURE 4.

Annie Ganzala, Sem título 4, da série Erotismo, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 4.

Annie Ganzala, Sem título 4, da série Erotismo, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 5.

Annie Ganzala, Sem título 3, da série Erotismo, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 5.

Annie Ganzala, Sem título 3, da série Erotismo, 2016. Aquarela, 18 3/4 × 13 3/8 in. (47.6 × 34 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

A ausência de especificidade contextual, como casas, ruas, cidades, etc., serve para centralizar os corpos, os atos sexuais e afetivos, e também para nos incluir na criação de um arquivo corporal e sensual. O espaço nas obras de Ganzala é inclusivo em sua indistinção, abarcando mulheres negras lésbicas independente de sua localização. Annie Ganzala constrói um arquivo alternativo através da sua arte ao pintar panos de fundo multicoloridos e oníricos. Porém, a falta de um contexto preciso é apenas um dos aspectos que realçam o corpo. O enfoque no prazer e na sensualidade entre as mulheres, além do respeito ao poder erótico individual e compartilhado, permite que pessoas lésbicas e queer imaginem um espaço onde seu amor existe, resiste e é celebrado. A postura das duas figuras em Sem título 5, por exemplo, indica não só o conforto que se sentem juntas mas também conecta a audiência com uma realidade compartilhada, centralizando novamente o prazer. O ambiente que cerca as duas mulheres está repleto de estímulos visuais, ecoando aspectos sensuais e corporais das figuras. O dourado na pele e no cabelo da mulher que está ajoelhada conecta o ato sensual com o ambiente cósmico. Assim, a artista afirma a ligação entre a sexualidade e a formação de um ambiente distinto, dominado pelo prazer e desejo das lésbicas negras.

Na sua discussão da evolução da arte queer, Catherine Lord e Richard Meyer28 explicam que as obras LGBT dos anos 70 e 80 entram agora em um cânone de arte relacionada com a AIDS. Os autores relatam que o estado e a mídia se focaram nos espaços onde supostamente os atos “homossexuais” e a formação do estilo de vida gay se desenvolviam, não investigando e nem se educando sobre a ­mistura de fluídos corporais, ao enfrentar a doença como epidemia social. Portanto, estas entidades visaram eliminar os espaços determinados como homossexuais – bairros, bares e clubes conhecidos por serem ocupadas por pessoas gays. Todavia, Catherine Lord afirma, “healthcare issues did not foreclose the right to pleasure.”29 Assim, desde aquele momento, a arte queer assumiu a responsabilidade de (1) criar e reformular espaços públicos e compartilhados onde as pessoas queer podem se identificar; (2) contribuir com um arquivo de prazeres e desejos não heteronormativos; (3) centralizar os atos sexuais (mistura de fluídos corporais) como o foco da educação sexual em termos de DST.30 Conforme sua declaração de artista, o objetivo de Ganzala é criar obras centradas em lésbicas-negras “para que outras pessoas se sintam refletidas e encorajadas a manifestar suas subjetividades e dissidências relacionadas à sexualidade, gênero, religião, classe e raça.” Assim, a publicação de suas obras possibilita um espaço onde as pessoas identificadas como queer podem se ver, se amar e se descobrir, além de, conjuntamente, centralizar os atos eróticos e sexuais na formação de uma identidade coletiva.

O CORPO INTELECTUAL

O arquivo oficial, supostamente disponível a todos os cidadãos brasileiros, não inclui as vozes e imagens de mulheres e lésbicas negras. Esse arquivo – o corpus de uma nação, seus documentos e as histórias – constrói a narrativa dominante. Annie Ganzala e outros artistas LGBTQ e descoloniais contribuem, ao invés disso, para um arquivo que privilegia corpos minoritários e continuamente discriminados. Como afirmou Catherine Lord, há uma ausência, em muitos casos, de um arquivo oficial, de um espaço determinado e autorizado que guarda as histórias e realidades da cultura minoritária. No entanto, os corpos que vivenciaram a escravidão, em resistência contínua, possuem o arquivo escrito em suas peles, vivo nas suas células e nos seus cheiros. Ativo ou não, reconhecido ou não, o arquivo existe e permite a formação de uma materialidade no presente, baseada no passado colonial e com olhar para o futuro. A maneira como a cultura ocidental documenta a história privilegia o registro escrito – documentos e arquivos que, inerentemente, perpetuam uma versão limitada do passado e da experiência de identidades minoritárias na sociedade.

Walter Mignolo afirma a incapacidade do projeto colonial de apagar as memórias dos povos indígenas e dos africanos escravizados. Em sua discussão de como os colonizadores reprimiram as línguas indígenas em favor do seu próprio idioma, o autor explica que assim emerge “el pensamiento fronterizo.” Apesar da dominação constante, Mignolo diz que “las ideas no se matan: sobreviven en los cuerpos, pues son parte de la vida.”31 Dada a prevalência dos arquivos e os espaços de memória validados pelo heteropatriarcado branco e eurocêntrico, a única opção parece ser confirmar e lamentar a ausência de vozes e arquivos minoritários. Uma leitura corporal, sensual e erótica das obras de Annie Ganzala nos permite, entretanto, inverter este processo, identificando arquivos alternativos e lutando contra o epistemicídio cultural e histórico. O arquivo está presente nos corpos, bastando somente um olhar atento para compor a colagem das histórias compartilhadas.

A diversidade de rostos que ocupam quase toda a tela em Sem título 6 (da série Resistências, 2017, Figura 6) representa os ancestrais que se encontram conectados com a África, mesmo em diáspora, e a inteligência coletiva e individual desse grupo diverso. Mulheres jovens e velhas com cabelos soltos, presos ou em tranças, orixás e gente de gênero não-conformativo, todxs elxs como um quebra-cabeça de rostos e quase todas olhando diretamente para o espectador. Dessa maneira, Annie Ganzala cria um vínculo direto entre as cabeças das mulheres e o continente africano a África que as fornece uma inteligência específica ancestral. As histórias que não foram contadas ou documentadas, mas que habitam os corpos e as memórias dessas mulheres raramente representadas como pensadoras e intelectuais, preenchem a obra. O continente africano e as ilhas que o rodeiam aparentam ser um rosto, fonte de conhecimento não-ocidental.

Sem título 6 também nos lembra de que, em se tratando da África ou das pessoas negras nas Américas, não há somente uma comunidade ou grupo homogêneo. Embora a categorização racial no Brasil seja uma das mais complexas do mundo dada a variedade de categorias, esta ainda é baseada em simplificações discriminatórias, classificando a população entre “negras”, “pardas”, “indígenas”, etc., não correspondendo à diversidade presente no cotidiano. Ganzala busca popular esta obra com aqueles não representados nas estatísticas. Zuleide Paiva da Silva em seu artigo “‘Sapatão não é bagunça’: Estudo das organizações lésbicas da Bahia” explica que: “[a] ‘Filosofia da vida’ sugere a aventura de criar, de produzir conhecimento desde o corpo, com o corpo, reconhecendo e protegendo o próprio corpo como espaço sagrado, inviolado.”32 Annie Ganzala representa esse corpo sagrado conectando sua sabedoria com o continente africano e ressaltando a impossibilidade de narrar uma voz negra ou um povo negro. As lutas que nasceram na passagem entre a África e as Américas seguem presentes e são a base da resistência na sociedade contemporânea.

FIGURE 6.

Annie Ganzala, Sem título 6, da série Resistências, 2017. Aquarela, 22 × 16 3/8 in. (55.9 × 41.6 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 6.

Annie Ganzala, Sem título 6, da série Resistências, 2017. Aquarela, 22 × 16 3/8 in. (55.9 × 41.6 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

Ao procurar um arquivo representativo das vozes das mulheres negras e de pessoas queer, reconhecendo-se as amplas ausências, desaparições e limitações em termos de representatividade, percebe-se que as consequências do colonialismo criaram a possibilidade de inclusão de alguns corpos queer, mas mantiveram a exclusão de outros. Em termos da relevância da arte em formar memórias coletivas e de modificar nossa percepção da atualidade, Catherine Lord segue: “In the transmission of queer culture, then, the archive is both mourning and monument, a site coloured by loss as well as a structure through which the future is inscribed and by which it is imagined. The destruction of an archive central to a minoritized group is an act of cultural genocide . . . Queer culture is necessarily collaged from fragments, animated by backstory, mined from close readings and based upon an intelligence and intensity of gaze.”33 “O público” é como um clube com limitada membresia, um conjunto no qual nem todos os corpos e nem todas as identidades cabem. Esse “público” costuma ser composto por corpos hegemônicos–brancos, homens, capacitados, cis, de classe-média, etc. Entretanto, como diz Carol Vance em Pleasure and Danger: Exploring Female Sexuality, “diversity in images and expression in the public sector nurtures and sustains diversity in private life. When losses are suffered in public arenas, people for whom controversial or minority images are salient and affirming suffer a real defeat.”34 O arquivo acessível e aprovado pelo Estado e o “público” é um monumento que pode até celebrar o amor compartilhado entre homens, brancos, cisgênero, e, posteriormente, incluir também as lésbicas brancas, cisgênero e sua sensualidade compartilhada. É só através da luta e da lamentação que podemos hoje imaginar e presenciar um futuro diferente, articulado e exigido por artistas negras, indígenas, trans, etc, e por um público que aceita e compreende que não se pode negar este amplo arquivo e nem se manter cego a sua própria participação na manutenção de sistemas de documentação e validação racistas.

“Mães de Maio do Luto ou Luta” e “Marcha do Empoderamento Crespo” são as frases centrais de Sem título 7 (da série Resistências, 2017, Figura 7). Esta obra, repleta de histórias e emoções, privilegia o pensamento negro como fundamental na formação e interpretação da presente sociedade brasileira – antinegro, homofóbica, gordofóbica, promovendo o feminicídio e o subemprego da população negra. As duas figuras na base da obra se contam suas experiências, e várias delas são repetidas. Essa documentação de violências e discriminações diretamente ligadas à raça revisa o arquivo ocidental que não só privilegia a forma escrita como maneira favorecida para documentar a história coletiva, mas que também exclui totalmente as vozes e histórias da população negra. “Desemprego,” “Gorda, Preta, Sapatão,” e “Socorro” indicam as lutas do povo diverso representado na obra e, simultaneamente, são acompanhados por uma série de imagens que pretendem evocar um entendimento visceral por parte da audiência. Combinando as ações de documentar e de recontar histórias, Annie Ganzala revisa o arquivo negro lésbico e queer.

Thayz Athayde, pesquisadora, ativista e fundadora de Blogueirasfeministas critica a tendência de certas vozes autorizadas estudarem e falarem pelas comunidades minoritárias. Em uma publicação intitulada I Seminario Queer e os saberes subalternos, ela reflete sobre um congresso queer que aconteceu em São Paulo, em 2015, e urge seus leitores a desafiarem as dinâmicas de espaços hegemônicos em favor do conhecimento subalterno: “[N]-ão tenhamos medo desse lugar-outro que podemos construir. Que não tenhamos medo de sair de um lugar hegemônico, higienizado, além de reconhecer os próprios privilégios. Que possamos construir lugares, saberes e vocabulários subalternos. Ao reconhecer que existem lugares hegemônicos e privilegiados, poderemos também reconhecer a importância dos lugares e saberes subalternos, dentro e fora do campo acadêmico. Enfrentemos a monstruosidade que jogam para nós, nos tornando esse monstro e utilizando a rede de solidariedade. Podemos pensar formas de resistência que vão além das leis, formas essas que podem trazer diferentes modos de vida. Porém, para que esses lugares não-hegemônicos sejam construídos, é necessário reconhecer os nossos privilégios e essa é uma tarefa árdua, mas necessária na construção de uma aliança queer, conforme propõe Butler, uma rede de solidariedade que seja uma forma política de resistência.”35 A arte de Annie Ganzala, a intencional formação de um espaço público queer compartilhado, além de um presente visível e inclusivo, aponta para um futuro no qual os corpos representados nas suas obras são o centro do arquivo vivo, um repertório que respira. Sua obra evoca um passado tanto violento e colonial quanto poderoso e espiritual. O arquivo que ela referencia não vem dos livros de arte e nem das coleções privadas das elites, mas habita nos corpos das mulheres negras. Estas, desde sua chegada nas Américas, têm experimentado perdas mais drásticas que a supracitada destruição de arquivos queer. O arquivo corporal, que jamais foi destruído, foi ignorado e desprezado através da consolidação do eurocentrismo nas Américas. Com a expansão e aceitação da divisão entre mente e corpo–o primeiro sendo privilegiado no pensamento ocidental–o arquivo corporal que continha as mulheres negras foi menosprezado.

FIGURE 7.

Annie Ganzala, Sem título 7, da série Resistências, 2017. Aquarela, 19 3/4 × 27 3/4 in. (51.2 × 70.5 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 7.

Annie Ganzala, Sem título 7, da série Resistências, 2017. Aquarela, 19 3/4 × 27 3/4 in. (51.2 × 70.5 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

Sem título 7 referencia o movimento #VidasNegras­Importam, que há no Brasil mas emergiu nos Estados Unidos, para criticar a violência policial, o subemprego e o salário desigual para as populações negras. No canto direito superior, há uma mulher negra sendo atacada por quatro homens não identificados; a protagonista dessa cena possui rosto diferenciado, assim como suas roupas, em contraste aos agressores retratados como sombras. Assim, a perspectiva da mulher negra e sua experiência estão no centro do arquivo. A presença do continente africano é um comentário sobre a luta pela liberdade dos sistemas coloniais na África do Sul. Assim, Annie Ganzala relaciona as lutas pós-coloniais na África com a resistência à violência cotidiana das Américas. A presença das Mães de Maio36 também aponta para a violência experimentada pela população negra, além das lésbicas e queer e o alto desemprego. A desvalorização dos corpos negros levou o movimento #VidasNegrasImportam e o artivismo de Annie Ganzala a expor as histórias de violência e discriminação que replicam, econômica e fisicamente, em um sistema colonial violento. Criar um arquivo que privilegia a experiência corporal da população, não só expande a informação disponível aos espectadores, mas também nos faz questionar a formação do arquivo prévio e os documentos que compõem a narrativa histórica nacional.

O diálogo se dá entre duas pessoas negras que compartilham experiências sobre as suas identidades, valores e comunidades. A mulher do lado direito remete a identidade gorda, preta e sapatão, exaltando narrativas revolucionárias, como o Quarto de despejo de Carolina de Jesus.37 A pessoa do lado esquerdo reflete sobre a formação de masculinidades e a expressão do gênero trans. Nesse espaço comunitário, essas duas pessoas contribuem para um entendimento das experiências vividas por eles. Como Sem título 6, há uma tensão entre a experiência compartilhada e a experiência individual, expressas por diversas perspectivas. Dessa forma, Annie Ganzala também questiona a figura do autor único e identificável prevalente na cultura ocidental. Apresentar a documentação da memória coletiva como um diálogo contrapõe metodologias ocidentais baseadas em especialistas, vozes autoritárias e letradas através da qual o arquivo é legitimado.

O CORPO INDIVIDUAL E O CORPO COLETIVO

O prazer, a resistência e a diversidade individuais, quando coletivizados, podem mudar a sociedade. Tanto o âmbito pessoal quanto o comunitário são importantes para a ampliação do arquivo com o qual Ganzala contribui. A artista afirma que não há apenas uma mulher negra, mas uma variedade de corpos e desejos potenciais, para contrariar não só modos de saber exclusivamente racionais, mas também a primazia do indivíduo como agente do conhecimento. O indivíduo, tradicionalmente, emerge como figura capaz de, sozinho, criar e manipular realidades, em detrimento de identidades interseccionais e coletivas. Para Annie Ganzala, propiciar o ativismo político tanto coletivo quanto individual rompe com os modelos de uma sociedade individualista e capitalista–valores herdados do colonialismo. Audre Lorde similarmente nota que: “[t]he erotic functions for me in several ways, and the first is in providing the power which comes from sharing deeply any pursuit with another person. The sharing of joy, whether physical, emotional, psychic, or intellectual, forms a bridge between the sharers which can be the basis for understanding much of what is not shared between them, and lessens the threat of their difference.”38 

FIGURE 8.

Annie Ganzala, Sem título 8, da série Resistências, 2015. Aquarela, 16 × 11 3/4 in. (40.6 × 29.8 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 8.

Annie Ganzala, Sem título 8, da série Resistências, 2015. Aquarela, 16 × 11 3/4 in. (40.6 × 29.8 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

Em Sem título 8, (da série Resistências, 2015, Figura 8) a pintora mostra uma diversidade de corpos – em termos de identidade de gênero, tamanho, raça, capacidade e idade39 – mas seus rostos são indiferenciados. O arco-íris que compõe o pano de fundo remete ao ativismo LGBTQIA+, que supostamente se opõe a noção de gênero binário e afirma as sexualidades não-heterossexuais. Entretanto, em retrospecto é possível afirmar que em sua concepção esse movimento excluía aqueles que não conformavam à hegemonia de ser homem branco e cisgênero. Essa obra apresenta e celebra a diversidade entre corpos femininos, trans e intersexos, celebrando o conhecimento compartilhado, coletivo e interseccional. Além disso, posiciona esses corpos no espaço público para fomentar representatividade.

Sem título 9 (da série Resistências, 2015, Figura. 9) faz também clara referência à experiência compartilhada entre mulheres – sejam elas trans, cis, hétero, queer, sapatão, etc.40 – celebrando a diversidade na expressão de gêneros. As águas que abrigam Iemanjá e os corpos vitimados na travessia entre África e as Américas em “Sem título 1” se convertem nos corpos das mulheres diversas que marcham juntas, como um único corpo entre as ondas. Dos mares do Atlântico, a orixá das águas salgadas oferece proteção e energias eróticas, poderosas e femininas.

FIGURE 9.

Annie Ganzala, Sem título 9, da série Resistências, 2015. Aquarela, 18 × 12 in. (45.7 × 30.5 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 9.

Annie Ganzala, Sem título 9, da série Resistências, 2015. Aquarela, 18 × 12 in. (45.7 × 30.5 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

O CORPO DA AUDIÊNCIA

Annie Ganzala extrapola o mundo de artes plásticas, de galerias e exibições, ao produzir graffiti e murais que alcançam um público mais amplo e modificam o espaço urbano. A mulher negra é a protagonista destes trabalhos também. Ao discutir performance como repositório de memória e lembrança, Diana Taylor reflete sobre a colonialidade e a preservação de histórias. Ela afirma que: “[p]art of the colonizing project throughout the Americas consisted in discrediting autochthonous ways of preserving and communicating historical understanding. As a result, the very existence/presence of these populations has come under question. Aztec/Mayan codices, or painted books, were destroyed as idolatrous, bad objects. But the colonizers also tried to destroy embodied memory systems, by both stamping them out and discrediting them.”41 As obras públicas de Annie Ganzala funcionam como textos que mudam o espaço público com o qual habitantes e transeuntes interagem, contribuindo à produção de memória. Essas obras questionam o que é entendido como história oficial e o que é incluído nos arquivos, uma vez que a arte no espaço público é excluída.

Há uma rede de grafiteiras brasileiras que tematiza a participação das mulheres na arte urbana, afirmando que as ruas são de todas e devem servir como um suporte para documentar as realidades negligenciadas por narrativas históricas oficiais. Panmela Castro, do Rio de Janeiro, é uma das mais famosas artivistas do Brasil, fundando a Rede Nami em 2010.42 A ONG busca empoderar as meninas e mulheres a contarem suas histórias através do spray, possibilitando a discussão da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Assim, ela facilita a participação de meninas e mulheres no projeto descolonial. Similarmente, Thalita Andrade, grafiteira negra e lésbica, utiliza seus grafitis para combater o femicídio e expor o machismo no Brasil. Como Annie Ganzala, elas centralizam a experiência feminina e reivindicam o espaço público para as mulheres.

FIGURE 10.

Annie Ganzala, Não vai ter Copa, 2013. Graffiti, 102 × 264 in (259.1 × 670.6 cm). Foto: obrigada a Annie Ganzala.

FIGURE 10.

Annie Ganzala, Não vai ter Copa, 2013. Graffiti, 102 × 264 in (259.1 × 670.6 cm). Foto: obrigada a Annie Ganzala.

Não vai ter Copa (2013, Figura 10) tematiza a resistência à Copa do Mundo de 2014, que ocorreu no Brasil, através de um diálogo entre mãe e filha. A criança diz: “Mãe, não vai ter copa”, um lema que ganhou tração na época, inserindo as mulheres nessa discussão por um prisma feminista. Parcelas da população rejeitavam a promoção da Copa dada a corrupção e o abuso de poder que eram frequentes em sua organização, assim como o aumento projetado da violência contra as mulheres.43 Em um contexto onde os corpos das mulheres negras são menosprezados e exotificados, artistas como Castro e Ganzala confrontam o discurso dominante, alterando o espaço público com corpos femininos alegres.

Bianca Santana, em “As mulheres negras e o feminismo no Brasil”, descreve a percepção do corpo feminino negro na sociedade brasileira e como ele segue objetificado para o prazer sexual dos homens ou para o trabalho doméstico. Ela afirma que: as “[m]ulheres brancas são percebidas como frágeis. Mulheres negras, por outro lado, são quase sempre chamadas de fortes. Nossos corpos nus são expostos na televisão antes, durante e depois do carnaval. Nós trabalhamos fora de casa desde sempre e não temos acesso à justiça. O Brasil tem uma cor muito específica: ela é branca.” E continua: “[o]-s corpos de mulheres negras, disseminados pela mídia como objetos sexuais, são expostos sem pudores. Autonomia sobre o corpo como direito a ser vadia e explorar a nudez é um ponto de conflito no feminismo brasileiro.”44 Assim, um graffiti nas ruas de Salvador que celebra o amor entre mulheres negras ou entre mães e filhas negras, alegres e autônomas, pode ser compreendido como um ato de resistência. Os penteados black power, a intimidade e o amor expressados em “Não vai ter copa” convidam o transeunte a reconhecer essas mulheres como pensadoras capazes de sentir e amar.

FIGURE 11.

Annie Ganzala, Raízes Graffiti, 2017. Graffiti, 96 × 240 in. (243.8 × 609.6 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

FIGURE 11.

Annie Ganzala, Raízes Graffiti, 2017. Graffiti, 96 × 240 in. (243.8 × 609.6 cm). Foto: obrigada a Mitra Ghaffari.

Para a exibição Raízes/Roots: Transformations in Contemporary Brazilian Art, em Setembro de 2017, Annie Ganzala engajou os sentidos e os corpos da audiência em sua instalação, Espiritualidade, Erotismo e Resistência (2017).45 Primeiramente, ela grafitou um mural no jardim do Colorado Springs Fine Arts Museum.46 Raízes Graffiti (2017, Figura 11) foi pintada ao vivo e contou com a contínua presença de visitantes, que contribuíram para a criação com as energias, os comentários e os aplausos diante do processo criativo. A obra retrata a mata e suas plantas abundantes coroam uma mulher, que desfruta do mundo natural. Annie Ganzala destaca elementos naturais, os orixás, e o rosto de uma deusa negra. A protagonista, com olhos fechados e o rosto estendido, parece se dirigir a um futuro aberto e desconhecido. As folhas coloridas remetem a um outono vermelho, laranja e amarelo, cores que sinalizam transformação. A figura remete às características de diversos orixás, estabelecendo uma ligação entre o mundo espiritual e o mundo terreno. Na parte inferior, há folhas verdes, mares, fogo e raios de sol, que se ligam ao pescoço da mulher. Essa imagem remete ao objetivo central de Ganzala – criar um espaço e um repertório de imagens que expressam o amor e a alegria de mulheres negras.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: O CORPO DA AUTORA

Tanya Saunders finaliza seu artigo sobre os legados coloniais para a epistemologia negra sapatão fazendo um convite ao retorno do corpo e da intelectualidade viva nele. Ela conclui: “Dada a história intelectual das feministas e lésbicas negras brasileiras, cujo trabalho aparece na literatura acadêmica, poesia, blogs, música, artes visuais, pinturas, histórias orais compartilhadas, projetos independentes de sororidade e engajamento espiritual não-cristão, me pergunto se é hora de se voltar para dentro e acessar todos esses corpos de conhecimento existentes para articular a(s) noção(s) brasileira(s) de emancipação humana, uma(s) que será diferente daquelas existentes em outros contextos geográficos, mas que tem o poder de contribuir para processos descoloniais de modo que redefinam o ser humano.”47 No presente artigo respondo a este convite ao participar de um diálogo interdisciplinário, no qual as artes plásticas e a arte urbana contribuem para ampliar os recursos que artivistas, intelectuais, ativistas sociais, políticos, historiadores, entre outros, possuem para avançar o projeto descolonial. Mulheres cisgêneros, brancas queers dos Estados Unidos, que se beneficiam da desigualdade resultante de processos coloniais, também devem se questionar sobre o uso e a exotificação da arte e do corpo da mulher negra.48 Espero que o presente artigo tenha ressaltado as obras elegidas de maneira que inspire os leitores a conhecerem a obra de Annie Ganzala e, além disso, a valorizar o impacto de uma narrativa que se foca em negras lésbicas, alegres, empoderadas e com capacidades intelectuais mais complexas do que as previamente documentadas nos arquivos escritos baseados no olhar eurocêntrico. Isto vale para pessoas que se veem refletidas nas imagens e para as que estão sendo apresentadas a essa perspectiva. Os interlocutores da obra de Annie Ganzala incluem ativistas feministas e queer, artistas de vários continentes – sororidades de mulheres negras diaspóricas trabalhando juntas para construir um arquivo que represente sua longa história nas Américas, assim como suas resistências e prazeres compartilhados atualmente. Estas obras confrontam os legados coloniais, com objetivo de revisar e renovar o arquivo histórico e vivo sobre a experiência e realidade das mulheres negras lésbicas.

A artista enfatiza uma perspectiva negra lésbica, evocando ligações ancestrais com a África, a natureza, e o erótico, a diversidade e coletividade, promovendo uma intelectualidade do corpo. Ao passo que a arte negra diaspórica é mobilizada e esvaziada pelo turismo em Salvador, a obra de Annie Ganzala contribui para o projeto descolonial ao ressaltar as vozes das comunidades que permanecem impactadas pela política racista que exotifica a cultura Afro na Bahia e no Brasil. Ao promover experiências sensuais e multissensoriais, Annie Ganzala evoca memórias antigamente esquecidas ou ignoradas, formando um espaço para a celebração do amor negro lésbico. A técnica e as temáticas de suas obras reiteram o legado colonial que se perpetua na atualidade, e propõem métodos alternativos para lembrar, documentar e existir como grupos minoritários. O poder de recontar, expandir, editar e celebrar as histórias e memórias negras femininas se funda no arquivo do corpo, mas também nas cartas, blogs, ensaios, romances e teorias que são compartilhados, lidos e repetidos.49 

1.
Ao longo do artigo, usarei a forma neutral dos adjetivos, como faz aqui a artista, quando for apropriada.
2.
Annie Ganzala. “Declaração de Artista.” In Raízes / Roots: Transformations in Contemporary Brazilian Art, curated and edited by Naomi Pueo Wood and Mitra Ghaffari (Colorado Springs: Colorado Springs Fine Arts Center at Colorado College, 2017).
3.
A Lei Áurea foi assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888 oficialmente abolindo a escravidão no Brasil. No entanto, nem as pessoas escravizadas “libertas”, nem os donos de grandes plantações receberam apoio do Estado para facilitar a transição, assim criando uma crise de emprego e um silenciamento dos abusos contínuos. Para higienizar a autoimagem brasileira, em 1890, Ruy Barbosa, Ministro de Finanças, mandou destruir muitos dos documentos que acompanharam o desenvolvimento da escravidão desde o século XVIII.
4.
Walter Mignolo. La idea de América Latina: La herida colonial y la opción decolonial. (Barcelona: Editorial Gesida, 2007), 30.
5.
Para discussão mais ampla do projeto e conceito descolonial, ver Mignolo, La idea de América Latina e Anibal Quijano and Michael Ennis. “Coloniality of Power, Eurocentrism, and Latin America.” Nepantla: Views from South 1, no. 3 (2000): 533–80.
6.
Para saber mais sobre participação de Ganzala no projeto “Murais de Leba” em Angola, ver “Angolanos e Brasileiros Pintam ‘Resistência Negra.’” 2018. Jornal De Angola. July 25, 2018. https://www.geledes.org.br/angolanos-e-brasileiros-pintam-resistencia-negra/.
7.
L. H. Stallings. Funk the Erotic: Transaesthetics and Black Sexual Cultures (Urbana: University of Illinois Press, 2015), 28.
8.
Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017. January 29, 2018. https://antrabrasil.files.wordpress.com/2018/02/relatc3b3rio-mapa-dos-assassinatos-2017-antra.pdf. O estudo da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) mapeou e compilou os dados acerca dos assassinatos de Travestis e Transexuais. O estado de Minais Gerais é onde a população trans é mais vitimada, com 20 assassinatos, e a Bahia aparece como o segundo, com 17 casos. Ver Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).
9.
O ONG Grupo Gay da Bahia também documentou o aumento de 58 para 179 nos homicídios por ano entre 2008 e 2017.
10.
De acordo com o relatório da ANTRA, “a taxa de assassinatos de Travestis e Mulheres Transexuais em relação à população Trans é de 11,9 homicídios a cada 100 mil, enquanto a taxa de assassinatos de mulheres cis é de 4,8 assassinatos para cada 100 mil” (ANTRA, 2017, p. 19).
11.
Para mais detalhes, Beatriz Drague Ramos e José Antonio Lima. “No Brasil, 64% dos presos são negros.” Carta Capital. August 12, 2017. https://www.cartacapital.com.br/sociedade/no-brasil-64-dos-presos-sao-negros
12.
Ver Heloísa Mendonça. “Queermuseu: O dia em que a intolerância pegou uma exposição para Cristo.” El País. September 13, 2017. https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/11/politica/1505164425_555164.html
13.
Benoit Loiseau. “5 Queer Brazilian Artists on Identity, Censorship, and Survival.” I-D. April 28, 2018. https://i-d.vice.com/en_us/article/9kg7gv/queer-brazilian-artists-censorship-politics.
14.
Para saber mais, ver Santos, Luan. “Marcha do Empoderamento Crespo reúne dez mil pessoas na Avenida Sete.” Correio 24 horas. October 18, 2017. https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/marcha-do-empoderamento-crespo-reune-dez-mil-pessoas-na-avenida-sete/
15.
Ver os comentários do presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, sobre prevenir crianças de aprenderem sobre temas LGTB.
16.
Outra lésbica graffiteira em Salvador, Thalita Andrade, utiliza seus grafitis para combater o femicídio e expor o machismo no Brasil.
17.
Simone Souza. “Teorias Lésbicas Contemporâneas e a Arte Como Ativismo e Potência De Resistência e Visibilidade.” Cadernos de Gênero e Diversidade 4, no. 2 (2018): 134–43, 139.
18.
O candomblé segue uma religião discriminada no Brasil. Atualmente, igrejas pentecostais, que opõem religiões afro-brasileiras, têm aumentado em número e presença nos bairros pobres e mesmo em cargos públicos.
19.
Conceição Evaristo. “Enegrecer O Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a Partir de uma Perspectiva de Gênero.” Geledés. March 6, 2011. https://www.geledes.org.br/enegrecer-o-feminismo-situacao-da-mulher-negra-na-america-latina-partir-de-uma-perspectiva-de-genero/.
20.
“Yemanjá.” Candomblé O Mundo dos Orixás. https://ocandomble.com/os-orixas/yemonja/
21.
Patrícia Gonçalves. “Aquarelas Lésbicas: ‘mãe, Afrosapatão, Grafietira, Artivista.” Catraca Livre. May 16, 2017. https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/aquarelas-lesbicas-mae-afrosapatao-grafiteira-e-artivista.
22.
Em uma entrevista, Wangechi Mutu – artista do Quenia que trabalha atualmente nos Estados Unidos, tematizando o corpo feminino negro – explica seu enfoque constante nas corporalidades: “I’m quite aware that one of the inherent contradictions in ‘using’ the female body both as a site for debate and thought, as well as a motif that attracts and dilates the mind’s eye, is that this female body yet again is being utilized and mounted as a means to an end . . . I don’t have the privilege of fetishizing some form of invisibility. So, having said that, I think that the body is a very ‘natural’ point of departure for me. It’s the simplest way to ask or demand that the viewer immediately place themselves somewhere relative to the issues, images and ideas they’re about to encounter” (Isolde Brielmaier, Malik Gaines, Wangechi Mutu, and Michael Veal. Wangechi Mutu: A Shady Promise (Bologna: Damiani, 2008), 21.) Ela, como Annie Ganzala, usa seu enfoque na estrutura física como extensão de sua experiência individual habitando um corpo que foi e continua sendo marcado por sua raça, carregando com ele a colonialidade no contexto das Américas.
23.
Tanya L. Saunders. “Epistemologia negra sapatão como vetor de uma práxis humana libertária.” Revista Periódicus 1, no. 7 (May 18, 2017): 102–16.
24.
Audre Lorde. “The Uses of the Erotic.” Sister Outsider (Berkeley: Crossing Press, 2007), 53.
25.
Bianca Santana explica que “os corpos de mulheres negras, disseminados pela mídia como objetos sexuais, são expostos sem pudores. Autonomia sobre o corpo, como direito a ser vadia e explorar a nudez, é um ponto de conflito no feminismo brasileiro”. (Bianca Santana. “As Mulheres Negras e o Feminismo No Brasil.” Geledés. January 7, 2015. https://www.geledes.org.br/mulheres-negras-e-o-feminismo-no-brasil/)
26.
Lorde, “The Uses of the Erotic,” 54.
27.
Stallings, Funk the Erotic, XV.
28.
Seu estudo é focado principalmente nos Estados Unidos. No entanto, os autores também incluem movimentos artísticos e artistas da Europa e alguns poucos da América Latina (como Flávio de Carvalho e Hélio Oiticica do Brasil, Juan Davila do Chile, Boris Torres do Equador e Alma López e Nahum Zenil do México).
29.
Catherine Lord and Richard Meyer Eds. Art and Queer Culture (Phaidon Press Limited: New York, 2013), 33.
30.
Zuleide Paiva da Silva (2017, p. 36) afirma que “a partir dos anos 90, o ‘corpo lésbico’ passou a vocalizar um discurso próprio sobre a sua relação com a Aids e as demais DSTs como uma das principais estratégias de afirmação do direito à saúde sexual, tornando-se visível a partir das suas próprias demandas de saúde . . . Como bem coloca Almeida, a saúde passou a ser o mais poderoso passaporte para organização e a visibilidade das lésbicas”.
31.
Mignolo, 35.
32.
Zuleide Paiva da Silva. “‘Sapatão não é bagunça’: Estudo das organizações lésbicas da Bahia.” Doctoral dissertation. Universidade Federal da Bahia, 2016, 23. https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/24026/1/TESE%20SAPATÃO%20NÃO%20É%20BAGUNÇA.pdf
33.
Lord & Meyer, Art and Queer Culture, 39.
34.
Carol Vance. Pleasure and Danger: Exploring Female Sexuality (New York: Harper Collins, 1993), 4.
35.
Thayz Athayde. “I Seminario Queer E Os Saberes Subalternos.” Blogueiras Feministas. September 30, 2015. https://blogueirasfeministas.com/2015/09/30/i-seminario-queer-e-os-saberes-subalternos/.
36.
Movimento iniciado em 2006, motivado pela morte de 500 pessoas no estado de São Paulo com a participação de policiais. Como reação, as mães das vítimas passaram dois anos de luto.
37.
Carolina de Jesus. Quarto de despejo (São Paulo: Ática, 2014). Carolina de Jesus, negra e ex-escrava, nascida em Minas Gerais e radicada em São Paulo, foi uma escritora que narrou a vida cotidiana da favela onde morava em Quarto de despejo, publicado em 1960.
38.
Lorde, 56.
39.
Zuleida Paiva da Silva (2017, p. 38) menciona três momentos no movimento lésbico: “No primeiro, os movimentos se reestruturam em torno da reivindicação identitária pautada na política de visibilidade e ação social. No segundo, reestruturam-se a partir da ‘onguização’ dos movimentos sociais através da apropriação de lugares de poder nas políticas públicas no campo dos Direitos Humanos, Saúde e Educação. O terceiro momento, afirma a autora, é expresso na midiatização das lésbicas e na proliferação de imagens e representações”. Assim, a representação diversa de identidades está situada neste terceiro movimento.
40.
Ao longo desta discussão, uso o termo e a identidade “mulher” para identificar mulheres cisgênero, “cis”, ou mulheres trans. Esta lista também inclui outras identidades que fazem referência à sexualidade e à identidade de gênero. “Sapatão” é a maneira como a artista se identifica. Embora este termo possa ser considerado depreciativo em certos contextos, aqui é uma maneira afirmativa de auto-identificação.
41.
Diana Taylor. The Archive and the Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas (Durham: Duke University Press, 2003), 34.
42.
Panmela Castro. Panmela Castro Urban Contemporary and Performance Art. https://panmelacastro.carbonmade.com/.
43.
De acordo com o National Centre for Domestic Violence, a violência doméstica e a Copa do Mundo estão intimamente relacionadas. Para mais informações: National Centre for Domestic Violence. https://www.ncdv.org.uk/
44.
Santana, “As Mulheres Negras e o Feminismo No Brasil.”
45.
Para acompanhar Annie Ganzala em um tour de uma das instalações na exibição, ver Ghaffari, Mitra. “Annie Ganzala Tour da Exposição.” YouTube, October 4, 2017. https://www.youtube.com/watch?v=4UCfXyNXgGk
46.
Para acompanhar a criação do mural, ver Ghaffari, Mitra. “Annie Ganzala Timelapse.” YouTube, October 8, 2017. https://www.youtube.com/watch?v=LZTaISdn0KI
47.
Saunders, “Epistemologia negra sapatão como vetor de uma práxis humana libertária,” 115–16.
48.
Em um post do dia 28 de agosto no Instagram, a artista acompanhou uma aquarela de uma mulher branca amamentando e de uma mulher negra com a seguinte declaração: “Ser sapatão negra mãe e periférica são múltiplos desafios, lidar com a violência na comunidade, com a violência que vai afetar também a cria, ser criativa para driblar o desemprego, entre muitos outros desafios o maior desafio é lidar com o racismo dentro das relações interraciais com mulheres brancas. Sempre fomos questionadas sobre o nosso desejo, e o desejo por mulher branca como um desejo colonial, mas entendemos todo processo de espelho quebrado, baixo autoestima, negação da própria identidade e violência sistemática que destruíram nossas próprias referências de desejo. Mas e vocês brancas que só se relacionam com mulheres negras. Vocês já refletiram sobre seu desejo colonial?” A reflexão sobre a transferência das relações coloniais para as relações íntimas lésbicas é outra área que temos que avaliar e reconhecer como espaço vulnerável à reprodução da colonialidade.
49.
Agradeço a colaboração de Annie Ganzala e Maíra Candian Dutra na revisão do artigo.